Antes de tudo, o essencial:
De coração para você que está passando por isso…
Perder alguém querido já é uma das experiências mais dolorosas que existem.
Quando essa perda acontece dentro de um hospital, um lugar que deveria representar cuidado, proteção e segurança, o sofrimento costuma vir acompanhado de desamparo, choque e muitas perguntas sem resposta.
Quando surgem informações novas, sinais de irregularidade ou dúvidas sobre o que realmente aconteceu, a dor se mistura com angústia, insegurança e sensação de injustiça.
E lembre-se: Questionar não é acusar, é buscar verdade, respeito e dignidade.
Como advogada que atua na defesa de pacientes, acompanho de perto o impacto que a falta de informação, a ausência de transparência e falhas graves no atendimento hospitalar causam em quem fica. Sei o quanto é difícil viver o luto enquanto se tenta compreender se aquela morte poderia ter sido evitada.
🩺 Neste artigo, você vai entender:
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O que aconteceu no Hospital Anchieta, em Brasília e por que esse caso reforça a importância dos direitos do paciente.
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Quais são os direitos dos pacientes e de suas famílias, mesmo quando a investigação ainda está em andamento.
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Quando o hospital pode ser responsabilizado civilmente?
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Por que não é necessário esperar uma condenação criminal para buscar indenização.
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E quais condutas simples de pacientes e acompanhantes podem ajudar a proteger o paciente e preservar informações importantes.
Se você perdeu alguém em circunstâncias que ainda não fazem sentido, ou se quer saber como agir para proteger quem ama durante uma internação, este conteúdo foi escrito para você.
O que aconteceu no Hospital Anchieta e por que esse caso reforça a importância dos direitos do paciente.
Recentemente, veio a público a investigação de TRÊS mortes ocorridas no Hospital Anchieta, localizado no Distrito Federal. Segundo informações divulgadas pela Polícia Civil e amplamente noticiadas pela imprensa, três pacientes que estavam internados na Unidade de Terapia Intensiva da instituição faleceram entre os meses de novembro e dezembro de 2025.
- As mortes passaram a ser investigadas após a identificação de circunstâncias atípicas, como pioras clínicas súbitas, o que levou o próprio hospital a instaurar um comitê interno de apuração.
- A partir dessa investigação, foram levantados indícios de condutas graves envolvendo três ex-técnicos de enfermagem, relacionadas à administração indevida de substâncias em pacientes, sem prescrição médica regular.
- Diante desses indícios, o hospital comunicou as autoridades, e ex-funcionários foram presos em 19/01/26, preventivamente.
[É importante ressaltar que neste momento, a apuração criminal ainda está em andamento, e que a responsabilidade penal dos envolvidos será definida pelas instâncias competentes.]
Do ponto de vista dos direitos dos pacientes e de suas famílias, o caso chama atenção para um aspecto fundamental: mesmo quando a família acredita, inicialmente, que o falecimento decorreu de causas naturais, o surgimento posterior de informações relevantes pode alterar completamente a compreensão dos fatos e isso não elimina direitos!
Casos como esse evidenciam por que a lei garante à família:
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acesso integral ao prontuário médico.
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informações claras sobre medicamentos e procedimentos realizados.
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transparência quanto a intercorrências graves.
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possibilidade de apuração de eventual falha na prestação do serviço hospitalar, independentemente do desfecho criminal.
Buscar esclarecimentos nessas situações não significa acusar ou antecipar julgamentos.
Significa exercer um direito legítimo à informação, à dignidade e ao respeito, especialmente quando a perda ocorre em um ambiente que, por definição, deveria oferecer cuidado e segurança.
Quais são os deveres legais do hospital em relação ao paciente?
Hospitais, públicos ou privados, têm obrigações legais claras. A relação entre paciente e hospital é considerada, em regra, relação de consumo, o que impõe deveres rigorosos de segurança e transparência.
Entre os principais deveres do hospital estão:
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Dever de segurança: garantir que o paciente não seja exposto a riscos evitáveis
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Dever de vigilância: controle sobre quem acessa o paciente, medicamentos e prontuários
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Dever de informação: explicar procedimentos, medicamentos e intercorrências de forma clara
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Dever de organização: protocolos eficazes, controle de acesso e supervisão da equipe
Resumindo, pra você entender melhor: O paciente não escolhe individualmente cada profissional que o atende. Por isso, o hospital responde pelo conjunto do serviço prestado!
Dúvidas comuns:
O hospital pode ser responsabilizado mesmo quando o ato foi praticado por um funcionário?
Sim.
Em regra, o hospital responde civilmente pelos atos praticados por seus funcionários no exercício do trabalho.
Ainda que a conduta seja individual e até criminosa, ela pode revelar:
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Falha na supervisão
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Fragilidade nos protocolos internos
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Controle inadequado de medicamentos
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Acesso indevido a sistemas e prescrições
Esses fatores caracterizam falha na prestação do serviço, fundamento central da responsabilidade civil hospitalar.
É preciso esperar o fim da investigação criminal para buscar indenização?
Não.
A esfera criminal (investigação e eventual punição) é independente da esfera cível (indenização).
Isso significa que:
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A família não precisa aguardar condenação criminal
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O padrão de prova no processo cível é diferente
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A ação indenizatória pode tramitar paralelamente
Esperar o fim da investigação pode, inclusive, prejudicar a preservação de provas.
💡 Um ponto essencial para você ter em mente:
Cada caso é único.
A análise profissional é indispensável para identificar quais pedidos se aplicam à sua situação, quais documentos são necessários e qual estratégia jurídica é mais adequada para garantir o início ou continuidade do tratamento no menor tempo possível.
E um entendimento é constante em praticamente todas as decisões dos Tribunais em casos de responsabilidade hospitalar:
O que dizem os tribunais sobre mortes causadas por falha na prestação do serviço hospitalar?
A jurisprudência brasileira é clara ao reconhecer o direito à indenização quando comprovada falha no serviço médico-hospitalar.
Falha no serviço e dever de indenizar
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conduta negligente, imprudente ou imperita
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nexo causal entre a falha e o óbito
Em um caso emblemático, o TJDFT reconheceu a responsabilidade do hospital diante do esquecimento de compressas cirúrgicas no corpo da paciente, que culminou em seu falecimento, destacando a violação do dever de cuidado e o impacto devastador para a família.
- Leia também: Hospital é condenado em R$200 mil erro médico e pensão à vítima por erro médico
- Leia também: Hospital deve pagar pensão vitalícia e 1 milhão e meio por erro médico
Condutas de pacientes e familiares que ajudam a proteger o paciente internado
🔔 Aviso importante:
Essas orientações não transferem a responsabilidade ao paciente ou à família. O dever legal de segurança é sempre do hospital. No entanto, a atuação ativa do acompanhante pode inibir irregularidades, aumentar a transparência e evidentemente, preservar provas importantes.
- Presença de acompanhante: A presença constante de um acompanhante reduz situações de isolamento, inibe condutas abusivas, aumenta a vigilância informal e claro, auxilia no suporte direto do paciente que muitas vezes não consegue conversar diretamente com os profissionais.
- Perguntar sobre medicamentos e procedimentos!!! É direito da família perguntar: qual medicamento está sendo administrado; para que serve; quem prescreveu…Isso não é interferência é direito à informação! Combinado?
- Anotar informações “básicas” e da rotina do paciente: Registrar horários, nomes de medicamentos e intercorrências ajuda a: confrontar o prontuário, se necessário, preservar a memória dos fatos e principalmente, auxiliar no controle das medicações!
- Identificação dos profissionais: Saber quem são os profissionais que atendem o paciente facilita a comunicação e eventual apuração de responsabilidades.
- Questionar pioras súbitas: Piora repentina merece explicação clara. A família pode: pedir avaliação médica e solicitar que a intercorrência seja registrada de forma detalhada no prontuário!
Uma dica de ouro:
- Solicitar o prontuário desde cedo: O prontuário pertence ao paciente. O acesso pode ser solicitado durante a internação e também após a alta médica (mesmo em caso de óbito).
O que fazer diante de uma morte suspeita em hospital?
Solicitar cópia integral do prontuário médico
Guardar exames, receitas, mensagens e documentos
Registrar reclamação formal no hospital
Evitar assinar documentos sem compreensão clara
Procurar orientação jurídica especializada em direito do paciente
Casos como o investigado no Hospital Anchieta mostram que, muitas vezes, as famílias só tomam conhecimento de irregularidades muito tempo depois do óbito e isso não elimina direitos!!!
Fique atento aos direitos do paciente e da sua família
Quando uma morte ocorre em ambiente hospitalar, especialmente em meio a dúvidas, piora súbita ou falta de informações claras, ela não pode ser tratada com naturalidade automática.
A Justiça brasileira tem reconhecido, de forma reiterada, que pacientes e familiares não podem arcar sozinhos com as consequências de um atendimento que não foi seguro, transparente ou adequado.
E quando essas falhas resultam em agravamento do quadro clínico ou na perda de alguém querido, existem caminhos legais para buscar esclarecimento, responsabilização e reparação.
💌 Mensagem final
Querida leitora, querido leitor,
Eu sei que chegar até aqui não é simples.
Ler sobre mortes em hospitais, relembrar uma perda ou conviver com a sensação de que algo não foi devidamente explicado é emocionalmente pesado. O luto, somado à dúvida, pode gerar culpa, angústia e silêncio e nenhum desses sentimentos deveria ser enfrentado sozinho.
Se houve falhas no atendimento, ausência de transparência ou condutas que merecem esclarecimento, a família tem direitos, e existem formas responsáveis, seguras e respeitosas de exercê-los.
A informação é o primeiro passo para transformar dor em orientação, insegurança em proteção e silêncio em ação consciente.
Questione quando algo não parece certo.
E lembre-se: a vida, a saúde e a memória de quem partiu merecem respeito, atenção e responsabilidade.
Advogada Rita Soares
📩 Email: contato@ritasoares.adv.br
📸 Instagram: @advogadaritasoares
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Perguntas frequentes (FAQ)
O hospital pode ser responsabilizado mesmo sem condenação criminal?
Sim. A responsabilidade civil independe da penal.
A família tem direito ao prontuário completo?
Sim. O prontuário pertence ao paciente.
O segredo de justiça impede acesso às informações?
Não. Pode limitar a divulgação pública, mas não o acesso da família aos dados do paciente.
Existe prazo para buscar indenização?
Sim. Em geral, o prazo é de até 5 anos, mas cada caso deve ser analisado.
📚 Fontes consultadas
Este artigo tem caráter informativo e não substitui a orientação de um profissional qualificado.
